{"id":725,"date":"2025-06-18T14:14:44","date_gmt":"2025-06-18T17:14:44","guid":{"rendered":"https:\/\/unapiufes.wordpress.com\/?p=725"},"modified":"2025-06-18T14:14:44","modified_gmt":"2025-06-18T17:14:44","slug":"participante-da-unapi-ana-caracoche-sobreviveu-e-recuperou-filhos-sequestrados-pela-ditadura-argentina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/unapi.ufes.br\/index.php\/2025\/06\/18\/participante-da-unapi-ana-caracoche-sobreviveu-e-recuperou-filhos-sequestrados-pela-ditadura-argentina\/","title":{"rendered":"Participante da Unapi, Ana Caracoche, sobreviveu e recuperou filhos sequestrados pela ditadura argentina"},"content":{"rendered":"\n<p>Texto: Vitor Taveira<br>Jornal: <a href=\"https:\/\/www.seculodiario.com.br\/justiaa\/eu-deveria-ser-uma-entre-os-30-mil-desaparecidos\/\">S\u00e9culo Di\u00e1rio<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu sou um pontinho na hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina\u201d, me diz Ana Maria Caracoche enquanto traz uma garrafa de caf\u00e9 para a mesa em sua arejada casa no bairro Manoel Plaza, no munic\u00edpio da Serra. \u201cEu deveria ser uma entre os 30 mil desaparecidos. Deus me deu a gra\u00e7a de poder viver at\u00e9 ver meu bisneto. Estou agradecida pela vida\u201d, resume a argentina aos seus 78 anos, nos quais militou politicamente e teve que lutar por sua fam\u00edlia em sua p\u00e1tria de nascimento e no pa\u00eds que a acolheu, o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela sobreviveu n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 pris\u00e3o e \u00e0 tortura, mas tamb\u00e9m viveu uma das crueldades muito emblem\u00e1ticas da ditadura argentina: o sequestro massivo de filhos, ainda beb\u00eas, no per\u00edodo de exce\u00e7\u00e3o. Ana contou com ajuda do grupo das Abuelas de la Plaza de Mayo (Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio) para encontrar Mar\u00eda Eugenia e Felipe, desaparecidos com 1 ano e com 4 meses de idade, respectivamente. Era uma \u201cmadre\u201d junto com as \u201cabuelas\u201d, um caso raro, j\u00e1 que as av\u00f3s tiveram que lutar pelos netos, pois seus filhos e filhas n\u00e3o sobreviveram para busc\u00e1-los.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/unapi.ufes.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/whatsapp-image-2025-06-13-at-16.36.14-2-1024x576-1-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-729\" srcset=\"https:\/\/unapi.ufes.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/whatsapp-image-2025-06-13-at-16.36.14-2-1024x576-1-1.jpeg 1024w, https:\/\/unapi.ufes.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/whatsapp-image-2025-06-13-at-16.36.14-2-1024x576-1-1-300x169.jpeg 300w, https:\/\/unapi.ufes.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/whatsapp-image-2025-06-13-at-16.36.14-2-1024x576-1-1-768x432.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Ana Caracoche em sua casa com o len\u00e7o branco que marca a exist\u00eancias das \u201cAbuelas de la Plaza de Mayo\u201d<\/em>. Foto: Leonardo S\u00e1<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Estima-se que mais de 500 crian\u00e7as e beb\u00eas foram roubados de suas fam\u00edlias durante a ditadura argentina. As crian\u00e7as, no entendimento das Abuelas, eram usadas como \u201cBot\u00edn de Guerra\u201d. \u201cPara os militares era uma guerra, em que eles estavam armados e matavam pessoas, que tinham que fugir para n\u00e3o serem mortas. Imagina uma fam\u00edlia com um filho desaparecido e junto com ele sua crian\u00e7a. Na estrutura familiar, quem fica vivo fica esperando se essa crian\u00e7a um dia vai voltar e esse dia n\u00e3o chega. Isso era psicologicamente adoecedor\u201d, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 hoje, a Asociaci\u00f3n de Abuelas de Plaza de Mayo j\u00e1 ajudou a recuperar a identidade de 139 dessas pessoas, a \u00faltima delas em janeiro de 2025, aos 48 anos, filha de dois militantes desaparecidos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Da luta ao sequestro<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Nascida no povoado de Mercedes, no interior da prov\u00edncia de Buenos Aires, Ana Caracoche era professora de Matem\u00e1tica e a partir da sua atua\u00e7\u00e3o na igreja, fez sua op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e0 esquerda, militando na Juventude Peronista. Em 1975 se casou Oscar Gatica, que era integrante do sindicato dos metal\u00fargicos e do grupo guerrilheiro Montoneros. Juntos realizavam a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e atividades com crian\u00e7as em atividades educativas e culturais na regi\u00e3o em que viviam.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o golpe militar eclodiu em 24 de mar\u00e7o de 1976, Maria Eugenia, a primog\u00eanita, era rec\u00e9m-nascida. Tr\u00eas meses depois, Oscar foi preso e ficou detido por 11 dias, sofrendo torturas. Com sua libera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sobrou outra alternativa ao casal do que cair na clandestinidade, j\u00e1 com o segundo filho, Felipe, em gesta\u00e7\u00e3o no \u00fatero de Ana.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida se tornou insuportavelmente inst\u00e1vel. \u201cN\u00f3s come\u00e7amos a ser perseguidos pol\u00edticos e a tentar salvar nossas vidas. N\u00f3s \u00edamos como pod\u00edamos, de lugar em lugar, de companheiro em companheiro que nos acolhia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 6 de fevereiro de 1976, enquanto Ana levava o beb\u00ea Felipe para cuidados de sa\u00fade, a outra filha, Mar\u00eda Eugenia, estava na casa de um casal de amigos militantes, sob cuidados de Susana Falabella e Jos\u00e9 Abadala, quando estes foram sequestrados pela ditadura. O filho deste casal, Sabino, com dois anos, e Mar\u00eda Eugenia Gatica Caracoche, que acabara de completar um ano, foram separados dos adultos e levados para seguir a vida com desconhecidos, em outras fam\u00edlias. Susana e Jos\u00e9 nunca voltaram para a casa e seguem desaparecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um m\u00eas depois, Ana Caracoche foi localizada pela pol\u00edcia, capturada e levada para cadeia&nbsp; Estava com Felipe, que tinha quatro meses e foi deixado no p\u00e1tio da vizinha, que depois o entregou para ado\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo de um m\u00eas detida, ela foi torturada e passou por duas das terr\u00edveis pris\u00f5es da ditadura, La Cacha e Pozo de Banfield. Foi liberada em uma estrada, conseguiu se localizar, mas n\u00e3o tinha not\u00edcias dos filhos nem do marido, com quem s\u00f3 conseguiria retomar o contato tr\u00eas meses depois. \u201cSeguimos n\u00f3s dois, sem nossos dois filhos, na clandestinidade, passando por muitos lugares para salvar a vida\u201d, lembra.<br><br>Em 1980 nasce a terceira filha, Mar\u00eda Paz. No mesmo ano, decidem sair do pa\u00eds levando a beb\u00ea. N\u00e3o viam condi\u00e7\u00f5es de fazer den\u00fancias e procurar seus filhos ficando na Argentina e rumaram para o Brasil, contando com apoio da m\u00e3e e da irm\u00e3 Oscar para ajudar no que fosse poss\u00edvel nessa busca em solo argentino.<br><br><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Nova vida, luta antiga<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Sem saber uma palavra de portugu\u00eas, chegaram ao bairro de Laranjeiras, no munic\u00edpio da Serra, onde foram acolhidos pela Comunidade Eclesial de Base (CEB), \u00f3rg\u00e3o de organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria da Igreja Cat\u00f3lica com muita for\u00e7a nesta \u00e9poca, especialmente no Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO povo brasileiro nos salvou da loucura\u201d, relata Ana Caracoche. \u201cQuando voc\u00ea \u00e9 sequestrado e desaparecido, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m. Sua identidade \u00e9 zero, voc\u00ea n\u00e3o sente nada, deixa at\u00e9 de ser uma pessoa. A gente s\u00f3 se revitalizou porque tinha duas crian\u00e7as para buscar. A gente pensava: n\u00f3s vamos buscar, vamos encontrar, vamos restituir. Isso nos manteve vivo, tendo consci\u00eancia que o que n\u00f3s quer\u00edamos n\u00e3o era s\u00f3 para n\u00f3s, mas para toda Am\u00e9rica Latina, a consci\u00eancia de que a igualdade era um bem que todo mundo deveria desfrutar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/unapi.ufes.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/whatsapp-image-2025-06-13-at-16.36.14-4-1024x683-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-727\" srcset=\"https:\/\/unapi.ufes.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/whatsapp-image-2025-06-13-at-16.36.14-4-1024x683-1.jpeg 1024w, https:\/\/unapi.ufes.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/whatsapp-image-2025-06-13-at-16.36.14-4-1024x683-1-300x200.jpeg 300w, https:\/\/unapi.ufes.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/whatsapp-image-2025-06-13-at-16.36.14-4-1024x683-1-768x512.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Leonardo S\u00e1<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Os milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia n\u00e3o abalaram a f\u00e9 do casal argentino. \u201cNunca pensamos, nenhum dos dois, que n\u00f3s n\u00e3o \u00edamos encontr\u00e1-los ou que as crian\u00e7as estivessem mortas. A espiritualidade me ajudou muito\u201d, confessa. Diziam sempre aos amigos brasileiros que iam encontrar as crian\u00e7as e recebiam apoio.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No novo pa\u00eds, Oscar e Ana participaram da funda\u00e7\u00e3o do Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Serra (CDDH) e do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), que existem at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o deixaram de atuar politicamente onde estavam nem esqueceram da luta de onde vinham. A busca pelos filhos ganhou novos contornos a partir do final de 1983, com a crise da ditadura e convoca\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es, que tiveram vit\u00f3ria de Ra\u00fal Alfons\u00edn, colocando fim ao regime militar e abrindo espa\u00e7o para investiga\u00e7\u00f5es sobre os tempos sombrios. Foi criada a Comiss\u00e3o Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep), que serviram como forte apoio para a busca das \u201cabuelas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro Oscar, e depois Ana, viajaram \u00e0 Argentina para oficializar a den\u00fancia sobre o desaparecimento dos filhos. Logo voltaram a morar em Mercedes com os filhos Mar\u00eda Paz e Juan Manuel, este nascido no Brasil. Todos os dias percorriam cerca de 100 quil\u00f4metros para trabalhar na equipe das Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio, que recebiam in\u00fameras den\u00fancias que poderiam ajudar a encontrar as crian\u00e7as desaparecidas.<br><br><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>A busca se aproxima<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Ana Caracoche sabia o local onde Felipe havia desaparecido \u2013 e ela sido sequestrada. Por l\u00e1 conseguiu falar com uma enfermeira que tinha visto Felipe e a reconheceu como a m\u00e3e. \u201cN\u00e3o se preocupe que ele est\u00e1 bem\u201d, disse a enfermeira. \u201cComecei a chorar que n\u00e3o terminava nunca\u201d, relembra a m\u00e3e. A enfermeira deu ent\u00e3o o endere\u00e7o da fam\u00edlia que o havia adotado. A\u00ed entraram em cena as Abuelas de Plaza de Mayo e toda sua equipe multidisciplinar. \u201cTeve toda uma negocia\u00e7\u00e3o para restituir a crian\u00e7a a seus verdadeiros pais. \u00c9ramos os \u00fanicos pais vivos, das outras crian\u00e7as restitu\u00eddas os pais estavam desaparecidos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela lembra o processo como bastante tranquilo, dentro do poss\u00edvel para uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o extraordin\u00e1ria. N\u00e3o houve judicializa\u00e7\u00e3o e levou um m\u00eas entre a localiza\u00e7\u00e3o e a restitui\u00e7\u00e3o, segundo site oficial das Abuelas. Em setembro de 1984, Felipe Mart\u00edn Gatica Caracoche se tornava o 24\u00ba caso de restitui\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as desaparecidas no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A vizinha com quem o beb\u00ea havia ficado ap\u00f3s o sequestro a entregou para a fam\u00edlia de uma escriv\u00e3, que o registrou como filho pr\u00f3prio, dando-lhe outro nome. Ela n\u00e3o sabia a identidade dos pais de Felipe e supunha que haviam sido assassinados. \u201cEla cuidou muito bem dele por oito anos. Mas a crian\u00e7a era minha e n\u00e3o dela\u201d, diz Ana Caracoche com certa gratid\u00e3o. Felipe sabia que era adotado, ent\u00e3o ap\u00f3s os di\u00e1logos, a mulher recebeu a fam\u00edlia original em sua casa e apresentou-a \u00e0 crian\u00e7a: \u201cEsta \u00e9 sua m\u00e3e, esse \u00e9 seu pai e esses s\u00e3o seus irm\u00e3os\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A coisa fluiu com naturalidade. Oscar come\u00e7ou a brincar de futebol com o filho, j\u00e1 com oito anos de idade, os pais o abra\u00e7aram e assim foram reatando uma rela\u00e7\u00e3o rompida quando ainda era beb\u00ea. Ana define o reencontro como algo que n\u00e3o d\u00e1 pra explicar mas que sempre ocorre ap\u00f3s as restitui\u00e7\u00f5es. \u201cEle me abra\u00e7ava e passava a cabe\u00e7a dele por meu peito. Olha que reconhecimento\u201d, conta a m\u00e3e, como se houvesse uma religa\u00e7\u00e3o direta entre o menino restitu\u00eddo e o beb\u00ea desaparecido pela viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Felipe se acostumou rapidamente \u00e0 nova identidade e \u00e0 nova fam\u00edlia. Enquanto viveram na Argentina, a antiga fam\u00edlia o visitava com frequ\u00eancia e tinha uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com ele, que foi mantida mesmo posteriormente \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/unapi.ufes.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/whatsapp-image-2025-06-13-at-16.36.14-1-1024x576-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-735\" srcset=\"https:\/\/unapi.ufes.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/whatsapp-image-2025-06-13-at-16.36.14-1-1024x576-1.jpeg 1024w, https:\/\/unapi.ufes.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/whatsapp-image-2025-06-13-at-16.36.14-1-1024x576-1-300x169.jpeg 300w, https:\/\/unapi.ufes.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/whatsapp-image-2025-06-13-at-16.36.14-1-1024x576-1-768x432.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Leonardo S\u00e1<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Um dif\u00edcil caminho<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Mas a fam\u00edlia Gatica Caracoche seguia incompleta. Meses depois da restitui\u00e7\u00e3o de Felipe, chegou a Ana uma fotografia que ela suspeitou que pudesse ser de sua filha desaparecida, j\u00e1 com nove anos de idade. Dois detalhes na imagem da crian\u00e7a chamaram a aten\u00e7\u00e3o da m\u00e3e, que a perdera com um ano de idade: uma pequena entrada no cabelo e uma parte do rosto que a fazia lembrar de um irm\u00e3o seu.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed seguiu-se uma delicada investiga\u00e7\u00e3o, da qual Oscar fazia parte da equipe. Os supostos pais da crian\u00e7a haviam se separado e ela morava apenas com o pai, um policial. Oscar mantinha contato com uma professora de Maria Eugenia, que monitorava sua frequ\u00eancia escolar. Com uma den\u00fancia oficializada, o juiz intimou o policial para depor, mas este n\u00e3o apareceu. Ent\u00e3o, com permiss\u00e3o do juizado de menores, foi coletado sangue da crian\u00e7a na escola.<\/p>\n\n\n\n<p>O ano era 1985 e o exame de DNA como conhecemos hoje ainda estava sendo desenvolvido por cientistas. Nos anos anteriores, por\u00e9m, as Abuelas haviam feito peregrina\u00e7\u00f5es buscando cientistas de v\u00e1rios pa\u00edses que as pudessem ajudar a dar materialidade \u00e0 sua busca por restitui\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as desaparecidas a partir da gen\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Por meio de um exame de histocompatibilidade, foi verificado que a crian\u00e7a encontrada era mesmo Mar\u00eda Eugenia. Mas aconteceu o que Oscar temia: quando foi dada a ordem de busca da crian\u00e7a, o policial fugiu com ela. Quando pareciam t\u00e3o perto, os familiares se viram novamente distantes de conseguir. Depois de chorar e secar as l\u00e1grimas, com apoio das Abuelas, foram falar com o presidente Alfons\u00edn, que, afinal, era o comandante-chefe das For\u00e7as Armadas, a quem o foragido devia lealdade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O l\u00edder do poder executivo nacional sugeriu que buscassem colocar o caso na TV. Surtiu efeito. O homem entregou a crian\u00e7a e foi preso. Nunca mais se viram. Uma psic\u00f3loga recebeu a pequena, a contou a hist\u00f3ria e disse que seu pai, m\u00e3e e tr\u00eas irm\u00e3os a esperavam do lado de fora, que poderia sair para encontr\u00e1-los quando se sentisse \u00e0 vontade.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando ela saiu, abra\u00e7ou a fam\u00edlia. Oscar perguntou se a podia pegar no colo como quando era menor. A menina consentiu. \u201cEla ficou agarrada, n\u00e3o sei, como grudada nele. Um neg\u00f3cio\u2026ahh\u2026eu olhando ali\u201d, suspira a m\u00e3e, ao lembrar do fato d\u00e9cadas depois. Ana recorda de ter mostrado a ela a certid\u00e3o de nascimento, o teste do pezinho, as cartas e desenhos feitos por primos e irm\u00e3os dela. \u201cEm um momento comecei a cantar uma m\u00fasica que eu cantava quando estava gr\u00e1vida. Ela olhou assim e fez um gesto, como de reconhecimento. S\u00e3o detalhes que eu conto que voc\u00ea n\u00e3o vai entender\u201d, relata. \u00c9 claro que eu tento e prov\u00e1vel que n\u00e3o alcance entender.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a fam\u00edlia completa, os Gatica Caracoche voltaram para visitar o Brasil para mostrar as crian\u00e7as e agradecer aos amigos. \u201cO triunfo tamb\u00e9m foi deles, que nos apoiaram\u201d, considera Ana. \u201cMas depois, na surdina, eles confessaram que falavam que sim \u00edamos encontrar as crian\u00e7as, mas no fundo duvidavam que isso pudesse acontecer\u201d. Felizmente, o ceticismo brasileiro foi derrotado. E a rela\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia com o Brasil n\u00e3o terminava por a\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/unapi.ufes.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/whatsapp-image-2025-06-13-at-16.36.14-5-1024x683-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-737\" srcset=\"https:\/\/unapi.ufes.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/whatsapp-image-2025-06-13-at-16.36.14-5-1024x683-1.jpeg 1024w, https:\/\/unapi.ufes.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/whatsapp-image-2025-06-13-at-16.36.14-5-1024x683-1-300x200.jpeg 300w, https:\/\/unapi.ufes.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/whatsapp-image-2025-06-13-at-16.36.14-5-1024x683-1-768x512.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Leonardo S\u00e1<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>De volta para o futuro<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>A estadia da fam\u00edlia de volta em Mercedes durou de 1984, ano em que Felipe foi encontrado, at\u00e9 1989. Neste \u00faltimo ano, a pol\u00edtica argentina andava bastante turbulenta. A crise econ\u00f4mica levou a uma onda de revolta com manifesta\u00e7\u00f5es e saques a com\u00e9rcios.&nbsp;\u201cMar\u00eda Eugenia disse chorando: n\u00e3o quero que nada aconte\u00e7a com voc\u00eas. Oscar falou: vamos voltar para o Brasil, onde temos uma estrutura e amigos\u201d. Assim voltaram, e come\u00e7aram a vender as tradicionais empanadas argentinas na Pra\u00e7a dos Namorados, em Vit\u00f3ria, para sustentar o novo momento da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1996, Ana Mar\u00eda e Oscar se separaram, mas a fam\u00edlia continuou sempre pr\u00f3xima. E os dois militando ativamente. No Esp\u00edrito Santo, ele atuou no enfrentamento do grupo de exterm\u00ednio Scuderie Le Cocq, o que o levou a ter que fugir diante de amea\u00e7as de morte e se radicar na Para\u00edba, onde estabeleceu profundos la\u00e7os afetivos e pol\u00edticos. Seguiu atuando no MNDH em quest\u00f5es como combate \u00e0 tortura e prote\u00e7\u00e3o de testemunhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a pandemia de Covid-19, com diabetes e outros problemas de sa\u00fade, Oscar voltou a morar na Serra, dividindo a casa com Ana Caracoche e a filha Mar\u00eda Paz. Morreu em janeiro de 2021 aos 71 anos. Suas cinzas foram divididas entre sua praia favorita na Para\u00edba e o campo de futebol em que jogou na juventude em Mercedes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1996, mesmo ano em que se separou, Ana Caracoche passou a coordenar o N\u00facleo de Direitos Humanos da Secretaria de Estado da Justi\u00e7a do Esp\u00edrito Santo. Comandou com sua equipe projetos que se tornaram refer\u00eancia no Estado e o pa\u00eds, como o Balc\u00e3o da Cidadania, o Programa de Humaniza\u00e7\u00e3o da Gest\u00e3o Penitenci\u00e1ria, o Pr\u00eamio Humaniza e o Grupo Interconfessional (Ginter). Atuou por 19 anos na \u00e1rea at\u00e9 se aposentar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Idosa contempor\u00e2nea<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Ana Fez parte do Conselho Estadual de Defesa da Pessoa Idosa e da Pastoral da Pessoa Idoso. \u201cAgora n\u00e3o participo mais porque idoso n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de cuidar de idoso\u201d, brinca. Mas aos 78 anos parece ativa, serena e contempor\u00e2nea. Se atualiza das not\u00edcias assistindo pela TV ao canal ICL Not\u00edcias, com linha editorial de esquerda, transmitido pelo YouTube.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/unapiufes.wordpress.com\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/whatsapp-image-2025-06-13-at-16.36.14-10-1024x683-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-742\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Leonardo S\u00e1<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sai tanto de casa como antes. \u201cMeus filhos n\u00e3o querem que eu saia sozinha, t\u00eam esse cuidado. Eu acho que est\u00e3o exagerando, mas eles acham que est\u00e3o me cuidando. A palavra-chave pra mim agora \u00e9 paci\u00eancia\u201d, reflete. Ainda assim, com o devido acompanhamento, participa da comunidade da igreja \u2013 uma vizinha lhe traz uma cartilha de reza enquanto a entrevistava -, uma vez por semana frequenta o grupo de idosos do bairro, e quinzenalmente \u00e9 uma das facilitadoras de atividades da Universidade Aberta \u00e0 Pessoa Idosa, que funciona na Ufes.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 interessada em contar sua hist\u00f3ria. J\u00e1 foi chamada para muitas palestras, mas deu poucas entrevistas para reportagens no Brasil. Seu maior orgulho, diz, \u00e9 ter superado por meio da luta o sofrimento que viveu.<\/p>\n\n\n\n<p>As paredes da sala de sua casa possuem v\u00e1rios quadros que lembram suas lutas e a estante guarda diversas homenagens recebidas por sua atua\u00e7\u00e3o. Tem muitas lembran\u00e7as, mas tamb\u00e9m lugares ainda dif\u00edceis de habitar em sua mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA tortura \u00e9 uma cicatriz que vai ficar at\u00e9 eu morrer. Eu lembro da tortura. Quando n\u00f3s restitu\u00edmos nossos filhos foi uma alegria t\u00e3o grande que eu n\u00e3o lembro desses oito ou nove anos em que eu chorava e chorava e chorava. Agora n\u00e3o choro mais. Agora me emociono com as coisas boas, com as coisas linda.<br><br><a href=\"https:\/\/www.seculodiario.com.br\/justiaa\/eu-deveria-ser-uma-entre-os-30-mil-desaparecidos\/\">Clique e veja no site original a reportagem.<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Vitor TaveiraJornal: S\u00e9culo Di\u00e1rio \u201cEu sou um pontinho na hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina\u201d, me diz Ana Maria Caracoche enquanto traz uma garrafa de caf\u00e9 para a mesa em sua arejada casa no bairro Manoel Plaza, no munic\u00edpio da Serra. \u201cEu deveria ser uma entre os 30 mil desaparecidos. Deus me deu a gra\u00e7a de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":729,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-725","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/unapi.ufes.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/725","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/unapi.ufes.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/unapi.ufes.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/unapi.ufes.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/unapi.ufes.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=725"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/unapi.ufes.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/725\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/unapi.ufes.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/729"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/unapi.ufes.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=725"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/unapi.ufes.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=725"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/unapi.ufes.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=725"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}